Produção sustentável na Amazônia: estratégia de enfrentamento à crise climática e ao ‘Super El Niño’
Há mais de uma década, a ADAI, em parceria com o MAB e com recursos do Fundo Amazônia/BNDES, vem promovendo ações que ajudam as famílias atingidas a sobreviverem às crises climáticas. Foto: Coletivo de Comunicação ADAI Amazônia
Por Coletivo de Comunicação ADAI Amazônia
A Amazônia vive um dos períodos mais desafiadores de sua história. Nos últimos anos, a combinação entre o avanço do desmatamento e a crise climática intensificou as secas, queimadas, altas temperaturas e a redução do volume dos rios, afetando diretamente as famílias da região que dependem da agricultura familiar, da pesca e do extrativismo para sobreviver. A situação se torna ainda mais alarmante com a previsão da chegada do “Super El Niño”, fenômeno climático extremo previsto para o segundo semestre, segundo renomados cientistas, que deve ser um dos mais intensos das últimas décadas.
Nesse contexto, iniciativas que fortalecem a produção sustentável deixam de ser apenas ações de desenvolvimento rural e passam a representar importantes estratégias de adaptação às mudanças climáticas. É nessa perspectiva que a Associação de Desenvolvimento Agrícola Interestadual (ADAI) desenvolve, em parceria com o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o projeto “Produção Sustentável em Comunidades Atingidas da Amazônia”, com financiamento do Fundo Amazônia, gerido pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), com o objetivo de fortalecer a segurança alimentar, gerar renda, recuperar áreas degradadas e contribuir para a permanência das famílias em seus territórios.
No Pará, o projeto beneficia comunidades distribuídas em diferentes regiões do estado: Xingu, Tapajós, Araguaia, Belém e região metropolitana, Baixo Tocantins e Nordeste Paraense.
Investimento que permanece no território

Em 2017, o Fundo Amazônia apoiou a implementação de 240 Projetos Agroecológicos Integrados e Sustentáveis (PAIS) em comunidades da Amazônia. A iniciativa liderada pela ADAI combinou produção agroecológica de alimentos, criação de pequenos animais, recuperação ambiental e sistemas de irrigação movidos a energia solar.
O PAIS foi pensado para fortalecer a segurança alimentar e a geração de renda das famílias agricultoras, ampliar a diversidade da produção e reduzir a dependência de insumos externos. O projeto também incentivou o plantio de espécies nativas, como castanheira, cupuaçu e açaí, contribuindo para a recuperação de áreas degradadas e a conservação dos territórios.
Além da estrutura produtiva, as famílias receberam capacitação e acompanhamento técnico para o manejo sustentável do solo, da água e dos cultivos. Dessa forma, o investimento realizado deixou uma estrutura que permanece nos territórios e que, anos depois, ajuda as famílias a enfrentarem condições climáticas cada vez mais adversas, como as estiagens prolongadas e o aumento das temperaturas provocados pela crise climática e intensificados durante episódios de El Niño.
Impactos do clima na produção de alimentos
A crise climática já faz parte da realidade das famílias agricultoras amazônicas. O aumento das temperaturas, a irregularidade das chuvas e as estiagens prolongadas alteram os calendários agrícolas, reduzem a produtividade das lavouras e dificultam o acesso à água para consumo humano e produção de alimentos.
Durante o El Niño em 2024, que atingiu fortemente a Amazônia, os rios ficaram em níveis historicamente baixos e, com isso, houve dificuldades de transporte, perdas na produção agrícola, mortalidade de peixes e maior ocorrência de incêndios florestais. Para agricultores familiares, esses impactos significam redução da renda, insegurança alimentar e aumento da vulnerabilidade social.
Essa é a razão que elevam a importância dos projetos liderados pela ADAI, que contribuem para fortalecer sistemas produtivos, garantindo que as famílias permaneçam produzindo alimento mesmo diante das adversidades climáticas.
“Na época, eu tinha uma horta bem pequena e recebi o kit do PAIS; foi aí que tudo mudou. Eu plantei mais canteiros e mais cheiro-verde, couve, alface e vários outros vegetais. Hoje, eu ainda tiro meu sustento dessa horta que está muito maior, e eu só consigo fazer isso porque tive o apoio do projeto financiado pelo Fundo Amazônia/BNDES. Mesmo nesse período de crise climática, que está muito difícil para a gente produzir, o projeto ajudou e segue ajudando a gente a manter a horta e continuar tirando daqui o nosso sustento”, destacou Maria de Fátima, 54 anos, beneficiária do programa Fundo Amazônia em 2018 na comunidade ribeirinha Boa Esperança, no Baixo Tocantins.
Agroecologia e recuperação ambiental
As ações da ADAI implementadas na região amazônica apostam na agroecologia e na recuperação ambiental como caminho alternativo para adaptação das comunidades locais frente à crise climática.
Entre as principais ações, o PAIS ajuda a organizar sistemas diversificados de produção, aliados à captação de água, à irrigação e ao uso de energia solar. Essa tecnologia social amplia a diversidade de alimentos produzidos, diminui os custos da produção, melhora o aproveitamento da água e fortalece a segurança alimentar das famílias.
Outra frente importante são os Projetos Complementares, construídos a partir do que a comunidade já desenvolve, com respeito aos saberes locais e ao trabalho coletivo. Esse tipo de iniciativa funciona como um recurso a mais para ampliar o que a comunidade produz, fortalecendo as cadeias produtivas já existentes e ampliando as possibilidades de geração de renda para agricultores familiares.
Já os viveiros de mudas de espécies nativas representam uma estratégia essencial para recuperar áreas degradadas e ampliar a cobertura vegetal. Além da produção de mudas, o projeto prevê o plantio de árvores nativas, contribuindo para a restauração ambiental, a proteção dos rios, a melhoria do solo e o aumento da biodiversidade. A recomposição da vegetação também favorece a regulação do microclima, reduzindo os impactos das altas temperaturas sobre a produção agrícola.
Projetos da ADAI fortalecem as comunidades
Além dos investimentos produtivos, a ADAI promove processos de formação técnica, educação ambiental e fortalecimento da organização comunitária, reconhecendo que enfrentar a crise climática exige não apenas infraestrutura, mas também conhecimento, participação social e construção coletiva.
As famílias beneficiadas recebem acompanhamento técnico contínuo, participam de oficinas, intercâmbios regionais e atividades voltadas ao manejo sustentável dos recursos naturais, planejamento da produção e fortalecimento das organizações locais. O projeto também desenvolve ações de educação ambiental em escolas e comunidades, incentivando práticas sustentáveis e formando novas gerações comprometidas com a conservação da Amazônia.
Agricultura familiar ajuda a preservar a Amazônia

Em um cenário de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, iniciativas apoiadas pelo Fundo Amazônia/BNDES demonstram que proteger a floresta também significa fortalecer quem vive e produz nela.
“A gente teve a possibilidade de aumentar a nossa produção, ter uma produção de melhor qualidade por conta da irrigação, além de melhorar a nossa alimentação, porque agora não produzimos só em uma escala maior, mas também com mais variedade e qualidade. Se não fosse o sistema de irrigação, seria impossível produzir no verão, porque tá cada vez mais seco; o nosso solo não é muito úmido e cada vez mais tá seco por conta da crise climática. A gente precisa molhar bastante pra garantir as nossas hortaliças e as verduras, e ter uma alimentação de qualidade na mesa”, destacou a agricultora beneficiada em 2018, Domingas Bomfim, 65 anos, do município de Rurópolis, no Tapajós.
Ao incentivar sistemas agroecológicos, recuperar áreas degradadas, ampliar a produção de alimentos saudáveis e fortalecer a organização das comunidades, a ADAI, em parceria com o MAB, contribui para que centenas de famílias amazônicas estejam mais preparadas para enfrentar os impactos da crise climática sem abandonar seus territórios.
Mais do que reduzir vulnerabilidades, o projeto reafirma que a agricultura familiar é parte fundamental da solução para construir uma Amazônia mais resiliente, produtiva e sustentável, onde a proteção dos povos das águas e das florestas, a produção de alimentos e a justiça socioambiental caminham juntas.
Para saber mais detalhes das ações da ADAI na região, veja a Cartilha de Produção Sustentável em Comunidades Atingidas por Barragens na Amazônia, clicando aqui.
