Comunidades atingidas do Baixo Tocantins fortalecem agroecologia e organização frente à crise climática
O encontro teve como objetivo planejar coletivamente a implantação do Projeto PAIS nos municípios de Cametá, Mocajuba e Baião (PA)
Por Coletivo de Comunicação ADAI Amazônia
Nos dias 3 e 4 de setembro de 2026, a comunidade Campinho do Icatu, localizada no Quilombo São José do Icatu, em Mocajuba (PA), sediou o 3º Encontro de Lideranças Locais. O evento fez parte das ações do projeto “Produção Sustentável em Comunidades Atingidas da Amazônia”, realizado pela Associação Desenvolvimento Agrícola Interdisciplinar (ADAI) em parceria com o BNDES e o Fundo Amazônia.
As atividades reuniram 44 participantes — com presença paritária de homens e mulheres, além do engajamento de jovens — procedentes de comunidades rurais, ribeirinhas e quilombolas dos municípios de Cametá, Mocajuba, Baião e Limoeiro do Ajuru. Também somaram forças à iniciativa representantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), da Universidade Federal do Pará (UFPA), do Instituto Federal do Pará (IFPA – Campus Cametá), da Defesa Civil e da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Baião.
Planejamento comunitário para enfrentar a crise climática
O encontro articulou formação, capacitação técnica e o planejamento estratégico para a implantação das unidades do Projeto Produção Agroecológica Integrada e Sustentável (PAIS) na região. Durante a abertura e as análises conjunturais, os participantes refletiram sobre a importância da organização comunitária diante das pressões territoriais e ambientais vivenciadas no campo.
Na dimensão técnica, a oficina ministrada pelo Núcleo Interinstitucional de Estudos em Agroecologia do IFPA trabalhou métodos práticos de conservação do solo, adubação verde e compostagem com o reaproveitamento de resíduos locais, incentivando o abandono gradativo das queimadas e resgatando saberes tradicionais no manejo da vegetação nativa.
A crise climática e seus efeitos diretos no cotidiano do Baixo Tocantins nortearam os debates do segundo dia. Durante as rodas de conversa e dinâmicas de escuta, os moradores relataram transformações severas na rotina produtiva e no ciclo hídrico da região, destacando a seca precoce de igarapés, a diminuição do volume dos rios e a perda de imprevisibilidade dos calendários agrícolas tradicionais devido ao prolongamento dos períodos de estiagem e ao fenômeno El Niño. Na ocasião, as instituições parceiras e os órgãos públicos ressaltaram a necessidade de fortalecer os canais de denúncia contra danos ambientais, prevenir queimadas e articular ações preventivas junto às brigadas e à Defesa Civil local.






A formação buscou ampliar a compreensão sobre o El Niño e a crise climática, assim como relacionar esses fenômenos às mudanças percebidas pelas comunidades. Fotos: Coletivo de Comunicação ADAI Amazônia
Mutirões comunitários na implantação do PAIS
Para viabilizar a chegada do Projeto PAIS às propriedades beneficiárias, as famílias e a equipe técnica estabeleceram a logística coletiva para o recebimento, armazenamento e distribuição dos kits materiais. Em razão das especificidades geográficas da Amazônia, a operação exigirá um esforço combinado de transporte terrestre e fluvial até áreas insulares e de difícil acesso.
Para superar os desafios operacionais, garantir a preparação adequada dos terrenos e apoiar as famílias com menor disponibilidade de mão de obra, os participantes pactuaram a realização de mutirões comunitários e a criação de pontos de apoio nas sedes e comunidades centrais dos municípios.
O evento foi encerrado em tom de celebração e resistência na véspera do Dia da Amazônia, reafirmando o compromisso com a proteção da floresta, das fontes de água e da soberania alimentar dos territórios atingidos.
Vozes do território: a importância do incentivo e os impactos do clima
Os relatos das lideranças e agricultores presentes no encontro evidenciam a importância do apoio técnico e das tecnologias sociais para o fortalecimento da produção familiar no Baixo Tocantins. Sobre a chegada dos equipamentos, Maria Deuza, liderança quilombola do Quilombo Tambaiaçu, em Baião, destacou o impacto direto na realidade local: “A gente não tem condição de comprar uma caixa-d’água e todos esses materiais. Receber esse incentivo do Projeto PAIS é uma grande ajuda para nós e para o manejo da nossa produção”.
Paralelamente, os depoimentos reforçam como as transformações climáticas têm alterado profundamente a rotina de quem vive da terra e dos rios na região. A agricultora Hélia, moradora da Vicinal Bom Futuro, em Mocajuba, exemplificou as mudanças observadas no ciclo hídrico da comunidade: “O nosso igarapé não secava tão rápido. No ano passado, em julho, já estava seco e só voltou a ter água em março. Agora já está seco novamente”.
