Equipe técnica acompanhou a apresentação do detalhamento dos projetos para duas unidades territoriais tradicionais localizadas em Juatuba

A Associação de Desenvolvimento Agrícola Interestadual (Adai), Assessoria Técnica Independente (ATI) das atingidas e atingidos da Região 2 da Bacia do Rio Paraopeba, iniciou no sábado (27/06) o acompanhamento presencial das ações relacionadas ao Anexo I.3, do Acordo Judicial de Reparação, junto aos Povos e Comunidades Tradicionais (PCT).

O Anexo I.3 trata de Projetos de fortalecimento dos serviços públicos para a Bacia do Paraopeba. A equipe técnica da ATI acompanhou duas reuniões entre a Vale S.A. e lideranças atingidas no município de Juatuba.

Equipe técnica da ATI acompanha ações do Anexo I.3 relacionadas aos PCTs | Foto: Diego Cota/Adai Paraopeba

As reuniões foram realizadas nas Unidades Territoriais Tradicionais (UTT) Ilê Axé Ala Tooloribi e Ilê Asé Babá Jacunam Joei, que integram o coletivo dos Povos e Comunidades de Tradição Religiosa Ancestral de Matriz Africana (PCTRAMA). Foi apresentado para as lideranças atingidas o detalhamento dos projetos de Garantia de Acesso à Água destinados para as UTTs. A atividade faz parte da Etapa 1 de execução dos projetos.

O Coordenador Geral do Projeto Paraopeba, Thiago Pinho, acompanhou as reuniões e reforçou o compromisso da Adai com os PCTs da Região 2. “O acompanhamento dessas ações é parte fundamental do nosso trabalho. A retomada do direito à ATI representa um passo importante para a população atingida e para os PCTs, já que pode contribuir na garantia do cumprimento do Acordo Judicial e dos direitos dessa população, sempre respeitando suas especificidades e a centralidade das pessoas atingidas”, disse.

Povos e Comunidades Tradicionais da Região 2 voltam a ter Assessoria Técnica

Babá Edvaldo apontou a presença da ATI como importante de avançar na reparação | Foto: Diego Cota/Adai Paraopeba

Foram quase seis meses sem o acompanhamento por uma ATI das ações relacionadas ao Anexo I.3, desde o encerramento do trabalho da ATI anterior até a atividade do sábado (27), que contou com a presença da Adai. O atingido Babá Edvaldo, do Ilé Axé Ala Tooloribi, destacou a importância do assessoramento para promover a mobilização no território, algo que ficou comprometido no primeiro semestre do ano.

“A gente viu que a ATI não estando presente, as outras regiões andaram no Anexo I.1 e já estão avançadas. Aqui a gente não conseguiu por falta de mobilização. É como se tivesse uma paralisia nesse período. A gente não conseguia conversar entre si, fazer os encontros, avançar na luta. Então, o grande prejuízo foi na mobilização”, apontou.

“Mas isso não quebra a nossa verve de luta, a nossa virtude de luta. Então a gente não vai parar, vamos conseguir retomar, refazer essa ponte e trilhar. A Região 2 é muito combativa, muito forte. Estou vendo que a Adai vai conseguir perceber essa natureza, essa característica própria nossa e colaborar para avançarmos. A presença da ATI representa o fim da estagnação e uma possibilidade de avanço na organização e na luta”, afirmou Babá Edvaldo.

Babá Marcílio destacou o papel de interlocução da ATI | Foto: Diego Cota/Adai Paraopeba

Para o atingido Babá Marcílio, líder espiritual do Ilê Asé Babá Jacunam Joei, “é muito importante o retorno da assessoria, agora pela Adai”, afirmou. Ele explicou que a ATI auxilia os atingidos no diálogo no âmbito da reparação. “As assessorias nos orientam, nos informam, nos dão caminhos. Elas sabem conversar com a gente, entende o nosso diálogo e entende também o que as Instituições de Justiça dizem, porque são dois pontos diferentes. A ATI tem essa importância de interlocutor, de fazer com que os dois pontos dialoguem de forma clara e objetiva”, disse.

Projetos do Anexo I.3 para as UTTs visam a garantia do acesso à água

Apresentação do detalhamento do projeto no Ilé Axé Ala Tooloribi | Foto: Diego Cota/Adai Paraopeba

A segurança hídrica é uma preocupação constante das comunidades atingidas ao longo da calha do Rio Paraopeba, afinal são mais de 300 quilômetros do rio que foram atingidos pelos rejeitos do rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, desde a confluência com o Ribeirão Ferro-Carvão, em Brumadinho, até a Represa de Três Marias. Para as casas de religião de matriz africana, o desastre-crime atingiu também a dimensão do sagrado, inviabilizando suas práticas religiosas.

“O projeto de acesso à água é fundamental para que haja justiça ambiental e justiça para com os povos tradicionais. É indiscutível o impacto do rompimento, desde o desabastecimento e, o mais grave, aos locais de culto. Todos eles têm o encontro com as águas”, explicou Babá Edvaldo.

Os projetos das UTTs Ilê Axé Ala Tooloribi e Ilê Asé Babá Jacunam Joei visam justamente promover a segurança hídrica para as casas. Ambos estão inseridos no âmbito do Anexo I.3, parte do Acordo de Reparação destinada para o fortalecimento dos serviços públicos na Bacia do Paraopeba, e são obrigação de fazer da Vale S.A., causadora do desastre-crime.

Apresentação do detalhamento do projeto no Ilê Asé Babá Jacunam Joei | Foto: Diego Cota/Adai Paraopeba

Babá Marcílio explicou que após o desastre-crime as UTTs passaram a enfrentar escassez de água em períodos de seca. “A segurança hídrica para nós vai ser muito importante, porque com o desastre-crime, nós tivemos uma perda na manutenção da água em si. Hoje, principalmente no período de seca, que vai de maio a novembro, as nossas UTTs passam muito tempo sem água”, contou.

“Tendo essa estrutura vai garantir que a gente não fique sem água, principalmente nos dias de função, que é quando a gente recebe pessoas de vários lugares que ficam dentro da casa por duas ou três semanas”, completou Babá Marcílio.

No encontro da equipe da mineradora com os atingidos, foi apresentado o detalhamento da estrutura e das intervenções que serão feitas nas UTTs. Uma preocupação da comunidade é o impacto no cronograma de festas, por isso os atingidos cobraram celeridade na execução dos projetos.

“Essa reparação é uma maneira de a gente usar, por exemplo, a água da chuva em nossas plantas. Para alguns fundamentos, isso é importantíssimo. A gente só lamenta porque demora muito. O atraso das obras, do projeto, vai prolongando o sofrimento da vítima, que são os povos tradicionais”, pontuou Babá Edvaldo.

A Adai seguirá monitorando e informando às comunidades atingidas quanto ao andamento dos projetos do Anexo I.3.

Texto: Diego Cota/Adai Paraopeba